Crianças e jovens com um desenvolvimento psicológico mais saudável só traz vantagens!

Mas o que é que eu faço de mal para ele não gostar de mim?

By Antonio Valentim • January 5, 2016 • Filed in: Ansiedades, Auto-Estima

Quantas pessoas não há que fazem tudo para agradarem aos outros, que possuem um enorme coração, que tentam tudo para que os respetivos parceiros gostem delas e sentem mesmo assim uma falta de reciprocidade injusta ao ponto de pensarem que algo está errado com elas próprias? O que é que poderá estar aqui em causa de forma insidiosa?

Quando uma pessoa se envolve com alguém o conhecimento com ela vai-se desenvolvendo a pouco e pouco. No entanto, se este indivíduo for um manipulador mental, que tanto pode ser homem como mulher, é difícil de imaginar o que terá que suportar. Num relacionamento ter presente a possibilidade de se envolver numa relação manipuladora, mesmo que seja desagradável para qualquer um, pode evitar sofrimentos inconcebíveis.

Este tipo de relacionamento que envolve uma manipulação mental está demasiado presente nas relações para que se continue a manter silêncio sobre isso. Estar mais informado, saber como identificar um manipulador, quais são os objetivos dele, quais são as consequências sobre a outra pessoa, como é que ele atua, como se proteger dele, como desmantelar as armadilhas que ele tece, como resistir à pressão, como se libertar e como preservar a sua autonomia pode fazer a diferença. O pior, é que o desconhecimento atual da forma como o manipulador atua favorece a sua impunidade, é quase uma imunidade que se repete.

Antes de mais, é útil saber que enquanto o manipulador estiver na sua fase de sedução, preocupado em demonstrar o melhor dele mesmo, com promessas e com sonhos cativantes, tudo correrá da melhor forma. Porém, quando ele sentir que tem a pessoa na “mão” a situação muda drasticamente. É então que começa uma manipulação subtil e destruidora a longo prazo. O modelo de manipulação que se vai abordar não tem nada a ver com as seitas, as técnicas de vendas ou de politiquices, mas com o que se vive no quadro afetivo de uma relação.

Como é que é possível deixar-se manipular?

A maioria das pessoas pensa que nunca se deixaria manipular, que tal situação nunca aconteceria com elas. Acha que cair numa manipulação é próprio dos ingénuos ou dos simples de espírito. Julga-se que só é manipulado quem consente ou por ter fraca capacidade de autoafirmação. Esta visão da manipulação é demasiada simplista, culpabilizante e não ajuda em nada. Em que consiste então a manipulação?

A manipulação mental consiste em levar uma pessoa a fazer algo sem que se aperceba disso. A manipulação mental é duma subtileza, duma perfídia e duma perversidade que se o pedido do que se pretendia fosse apresentado de uma forma aberta, clara, este seria logo recusado. Normalmente quando se pensa que nunca se será manipulado já se está, possivelmente, a sê-lo regularmente sem que se dê conta. Desta forma, há que estar mais atento a não se fechar numa visão errada e tentar perceber algumas astúcias do manipulador que podem até manifestar-se nele de forma inconsciente. Sim, de forma inconsciente por inacreditável que pareça, porque, desde muito cedo, foi sempre a sua forma de interagir com os outros. Foi a única maneira que ele aprendeu e desenvolveu ao longo da sua vida “perversa”. Para ele é normalíssimo agir desta forma. É ser-se “esperto” na sua mera consciência limitada da realidade. O termo perverso utilizado aqui vai no sentido de prejudicar os outros, de os fazer disfarçadamente sofrer.

O problema da manipulação é que se precisa de algum conhecimento prévio, de preparação, de humildade e de bom senso para admitir que foi manipulado. Manipular tem como ponto principal fazer acreditar ao outro que se está agir para o seu próprio bem. Por norma quem está a ser manipulada não reconhece isso e defende-se com toda a força e com todas as argumentações possíveis, que agiu deliberadamente. Ora enquanto não se tiver a consciência que ser manipulado é possível e não se entender alguns pontos essenciais de como a manipulação se processa, e sozinho é difícil, pensa-se que a manipulação não ocorre. As pessoas que tenho recebido ao longo da minha prática profissional vítimas de manipulações dizem-me que nunca se tinham apercebido nem imaginavam que tal fosse possível.

A manipulação mental repetida é uma violência psicológica que desencadeia um estresse intenso. A título comparativo, imagine o estresse que se desencadeia quando se passa de raspão por um outro carro. Ora a vítima de manipulação vive num estado de estresse equivalente e permanente. Este estresse repetido pode levar a pessoa a se desligar da verdadeira mensagem das suas emoções e ter a sensação de viver momentos presentes irreais. Com o estresse perde-se o sentido crítico e leva a pessoa a agarrar-se mais ainda ao manipulador agressor. Agressor porque quem não permite ao outro ser ele próprio, instala no relacionamento um clima de violência à dignidade. De qualquer forma, atualmente já se reconhece cientificamente que há uma correlação significativa entre o estresse emocional e as doenças físicas. Para se combater melhor este estresse proveniente da manipulação deve-se tomar consciência daquilo que o provoca.

Como é que o manipulador mental procede?

Uma vez que a pessoa sofre nesta relação de manipulação perversa ela torna-se numa verdadeira vítima. Com o decorrer do tempo, vai sendo percebível que o manipulador não suporta que a pessoa esteja tranquila, alegre, que manifesta desejos próprios. Para o manipulador perverso faz-lhe confusão ver que há pessoas que podem ter com os outros uma visão sã, humana (empatia, altruísmo, gentileza desinteressada), porque ele é um indivíduo abominável, desconfiado, resmungão, calculista, cobarde, egocêntrico, inseguro mas que não o demonstra em ambientes sociais e que é também morbidamente ambicioso. Nalguns casos, o manipulador até se orgulha quando arrasa a outra pessoa, sente-se superior enquanto exerce o seu poder sobre ela. Recusa-se a admitir que a sua vítima possa existir como uma pessoa diferenciada e rejeita a sua maneira de ser. Ele impõe que ela seja como ele e assalta-a com desvalorizações, com insultos, com intimidações, com humilhações, com culpabilizações na tentativa de a moldar o seu jeito. Assim a pessoa, fragilizada, confusa, já nem sabe o que pensar deixando-se manipular mais facilmente.

Por incrível que pareça é num ambiente de tensão, de conflito, onde o manipulador perverso se sente mais à vontade. Tudo é valido para levar a sua vítima a ficar arrasada, sem energia. Depois ainda a acusa de ser uma pessoa fraca, de não valer nada e que deveria ter vergonha por estar assim neste estado. Mas ele esquece e dificilmente o reconhece que foi ele próprio que impercetivelmente a conduzia a esta situação. Muita das vezes ele até é capaz de se rir da humilhação da vítima o que denuncia o efeito perverso de sua incapacidade de se descentrar de si mesmo.

Recorrendo à metáfora dos vampiros que precisam de sugar o sangue das suas vítimas para viverem, os manipuladores perversos precisam de retirar a energia da vítima para existirem. No entanto, não têm este procedimento com todas as pessoas. A sua futura vítima foi cuidadosamente selecionada. Repare que desde o início do século XX, a física quântica demostrou que tanto a matéria como a consciência são duas formas diferentes de energia. A própria matéria física não é sólida é composta de campos de energia ou de padrões de frequência de informação. É enganador pensar que a vida se limita apenas àquilo que se vê e desperdiça-se o acesso a mais soluções viáveis.

Nestas condições a pessoa que está a ser vítima de um manipulador tenta aguentar o impensável até não suportar mais, até não ter mais energia. Quanto mais pujança para a vida a pessoa tiver, quanto mais otimismo, quanto mais humanidade no coração pelos outros sentir e quanto mais energia tiver mais consegue resistir às investidas do manipulador. Foi também por ter estas qualidades que ele a escolheu… até ao nefasto dia em que se encontra já totalmente enfraquecida, em que não antevê uma saída possível e fica nas suas mãos. A vítima pode passar anos a resistir até se decidir a ir consultar um técnico de saúde mental. Vai consultar e muitas das vezes é-lhe diagnosticado uma depressão ou outros problemas psicossomáticos ou físicos. Mas o que levou a pessoa a apresentar estes sintomas não é tido em conta. Abre-se assim a porta a possíveis diagnósticos incompletos. Noutras situações, a vítima decide agir quando se apercebe que os filhos estão a começar a sofrer e a se destabilizarem pela situação que se vive em casa.

Chegando a este ponto acrescenta-se uma outra dificuldade. Com todo o respeito pelos profissionais, deve-se porém dizer que muitos profissionais de saúde mental não estão suficientemente formados para ajudar uma vítima de manipulação perversa. Perante esta situação desagradável a vítima é confrontada com a incompreensão do profissional que recusa ter em conta a personalidade do manipulador e que apenas se debruça sobre a vítima e sobre os seus sintomas aparentes. Este resultado pouco claro reforça na vítima, involuntariamente, o sentimento de culpa, de desvalorização, da dúvida, do medo, e a sua falta de autoafirmação. Os próprios familiares e amigos não entendem porque é que a vítima não põe fim à relação com o manipulador se não suporta a situação. No fundo, pensam que se a vítima mantém esta relação é porque gosta ou é louca, masoquista, fraquinha, paranoide ou ainda que inventa estórias. Ora se ninguém a compreende como é que pode ultrapassar uma situação desta natureza sozinha?

Cabe agora perguntar como é que se chega a uma situação destas?

Progressiva e insidiosamente, o espaço mental da vítima vai sendo invadido pelo manipulador. Os limites interindividuais entre as duas pessoas são gradualmente suprimidos. No início da relação a pessoa deixa-se iludir pela forma sedutora e agradável como o manipulador se apresenta. Mas como é que ele atua? Ele recorre ao sonho do “Príncipe Encantado”, à imagem da “Princesa da minha vida”, ao mito das almas gêmeas, ao conto da Cinderela, para demonstrar aparentemente corresponder ao desejo inconsciente de ser a pessoa ideal que vai cuidar da vida da pessoa, que lhe vai colmatar todas as necessidades, todas as falhas. Pelas suas promessas e por outras expectativas ajustadas, bem afinadas, às que a vítima sempre desejou vai semeando nela a ideia de ser a pessoa ideal para a ajudar. É de bom-tom relembrar que no início, durante a fase da paixão, a pessoa só pensa no apaixonado. Este pensamento obsessivo sobre o paceiro preenche a sua vida psíquica. Seria como se o amado estivesse sempre presente, sempre acompanhada por ele no seu dia a dia alimentando assim a sensação de não estar só, de não estar abandonada. Pelos ideais que o parceiro representa, pela atribuição de todas as qualidades dele, a pessoa fomenta também a sensação de não haver limites, que nada será impossível com ele. A pessoa paira literalmente e compreende-se que acabe por levantar as suas defesas psicológicas. Assim, a vítima apaixonada pelas espectativas ideais prometidas e por tudo que ele representa, facilmente se deixa aproximar mentalmente, abrindo o caminho para que o manipulador conquiste levianamente o espaço psíquico dela.

Quando o manipulador vai longe demais, quando começa a ser desagradável, desdenhoso, irritável e mesmo odioso para com a vítima, esta explode e pondera acabar com a relação. Logo, descaradamente, ele transforma-se num indivíduo adorável, meigo, sedutor, sentimental, mas apenas o necessário para a readormecer. Assim que ele pressente que ela está novamente nas suas mãos tudo volta ao mesmo. No entanto, com a repetição monótona das mesmas cenas, o manipulador já nem a tenta seduzir e muda de estratégia. Recorre ao papel de vítima: chora, súplica, culpa os outros, promete mudar mas nunca o faz. Mesmo assim, flutua sempre nele o pavor que ela lhe possa escapar e calcula a forma para a agarrar para sempre.

Na prática quais são as astúcias mais frequentes utilizadas pelo manipulador para prender mentalmente a vítima?

As artimanhas mais usadas pelo manipulador são: a compra de um carro mas a crédito, o endividamento através da compra em comum de um bem imobiliário, o casamento, a ideia de querer ter filhos juntos e por aí fora. Por muito aborrecido que seja dizer isto o manipulador só deseja ter filhos para prender a vítima por muito tempo. Normalmente ele demonstra quase sempre pouca habilidade em lidar com os filhos. É demasiado permissivo, é indiferente ou então grita com eles. Não há uma coerência sã para com eles ou ainda utiliza-os contra a vítima. Veja-se a estatística de violência doméstica e verificar-se-á que logo desde o início da gravidez ou após o nascimento da primeira criança é quando a violência se intensifica. São só armadilhas! Quem é que, com um grande coração, não gosta de ouvir da pessoa que ama dizer que quer ter filhos juntos? Mais tarde, perante qualquer conflito ele ainda a “enclausura num mundo virtual” com discursos do género: que ela não tem razão para se queixar, que não lhe falta nada para ser feliz, que faz tudo o que pode para ela se sentir bem e que ela nunca está contente. Com estes discursos ditos com tanta convicção é complicado a vítima não se autoconvencer de que ele tem razão!

Muitas vezes, logo no início da relação a pessoa sente que algo não está correto com ele. Mas como acabou por gostar dele e por se entusiasmar com certas atitudes agradáveis que ele apresenta (aparenta muita segurança mas é superficial) ela vai ter o intuito de reforçar nele as atitudes mais fracas. Ela acha que ele a ama mas ao modo dele e encoraja-se para o compreender, para ter mais paciência porque sabe que ele teve uma infância difícil. Ela tenciona compensar as partes imaturas do manipulador, deseja mudá-lo para melhor e deixa-se cair numa fascinação no sentido hipnótico da palavra. Porém, ele fixa-lhe a atenção, capta-lhe a confiança e subtilmente priva-a da sua liberdade. Desmotiva-a das suas paixões, desanima-a das suas preferências, tenta desvalorizar os gostos dela. Isola-a dos familiares e dos amigos, mas apenas daqueles que ele não domina ou daqueles que não consegue influenciar. A seguir basta manter a vítima num estado de cansaço permanente, de esgotamento duradouro, de intimidação repetida, de condicionamento à obediência, destruindo-a lentamente sem que ela possa reagir.

Mas o que é que impede a vítima de agir?

O que impede a vítima de reagir é estar já presa numa teia lançada pelo manipulador que à mínima tentativa de revolta, de qualquer tentação de lhe escapar será repreendida. A repressão e a pressão constante que o manipulador exerce leva a vítima, condiciona-a, a recear as reações dele quando ela pondera a possibilidade de se revoltar. Não por violência física mas especialmente com insinuações, com cenas de ciúmes doentias, criando situações confusas, com paradoxos (por exemplo, quando diz firmemente algo e depois põe em pratica o contrário) e com outras formas de manipulação mental mais destruidoras que a dor física (intimidações, desvalorizações, humilhações, ironias, culpabilizações) e que causam um estresse medonho. É preciso relembrar que, de facto, durante a fase da paixão, ele teve o tempo suficiente para conhecer os pontos fracos da pessoa que escolheu e como se apoderar da mente dela.

A situação agrava-se quando a vítima, antes de o conhecer, viveu experiências de abandono que nunca foram bem “arrumadas”. É preciso ter em conta que o medo da rejeição não se situa ao nível da reflexão. É instintivo, visceral, como animal social a pessoa inconscientemente sente que não sobreviveria afastado dos seus semelhantes sem correr o perigo de morte. Poder-se-á dizer que quando se receia a rejeição, quando não se teve ainda a possibilidade de solidificar a sua identidade, quando se pretende sempre agradar e ser útil, quando se pretende do manipulador o reconhecimento, impossível, daquilo que a pessoa realizou para ele ou quando não se aprendeu a se valorizar como pessoa única e distinta, qualquer um se torna extremamente vulnerável às manipulações mentais independentemente do estatuto social e do nível intelectual.

Todas estas caraterísticas fundamentais e outras necessidades psicológicas do ser humano, como por exemplo, o reconhecimento, a atenção, o sentir-se respeitado e apreciado, a interdependência afetiva numa relação, a realização pessoal, o sentido existencial, entre outras necessidades psicológicas, podem ser trabalhadas com as sessões para as fortalecer. Atualmente há também todo um conjunto de estratégias, de réplicas, para saber o que dizer, e sobretudo não responder a um manipulador, para a pessoa se reconstruir, sem ter que romper logo com a relação.

Se a pessoa não se reconstrói com o passar dos anos o que é que lhe vai acontecer?

A vítima, encurralada psicologicamente, é levada e mantida num estado de apatia, sem o recurso necessário para analisar sozinha o que lhe está a acontecer. Para além disto, ela própria tem dificuldade em admitir um tal nível de crueldade e de malvadez da pessoa por quem se apaixonou. Nesta relação conjunta não se esqueça que ela investiu alma e coração.

Há aqui uma outra agravante quando a vítima é uma mulher. Ela foi educada séculos a fio a viver por e para um homem, ou seja, a ser-lhe dependente e submissa. Mesmo no século XXI, esta pressão cultural ainda se mantém bem viva no inconsciente de muitas mulheres. Há ainda demasiadas mulheres que amam os seus homens mas deixam-se abafar lentamente e morrem por medo deles. Receiam ficar sozinhas e querem ser dignas da missão que lhe foi entregue: a de ser submissa ou sacrificada e reduplicam o esforço para segurar a situação.

De qualquer forma a vítima, homem ou mulher, sente-se cercada quando também há crianças envolvidas, quando sempre houve o sonho de criar uma família unida e feliz ou quando contraiu dívidas financeiras que, às vezes, foi o próprio manipulador que insistiu para as realizar mesmo sendo, à primeira vista, com boas intenções. A consequência disto tudo, e o mais comovente, é que a vítima vai sentir-se injustamente envergonhada por nunca se ter apercebido, sem poder desabafar com ninguém porque poucos são aqueles que a entendem sem a criticar, sem a ajuizar, sem encher-lhe a cabeça de conselhos.

Paralelamente em público, a vítima é intimidada a participar nas mistificações, é condicionada a apresentar uma imagem enganosa de casal feliz, protegendo assim a mascara do manipulador. Apresentam-se como um casal prestável, cordial, amável, com um parceiro atencioso, cuidador, trabalhador, sociável, que gosta muito das crianças. É o casal perfeito e ideal. Com este comportamento em público é fácil de se entender porque é que a maioria das pessoas próximas acha que a vítima consente. Isto explica o porquê das pessoas chegadas, familiares e amigos, vizinhos, não entenderem a realidade que a pessoa vive. Muitos ficam surpreendidos com o desfecho sinistro da situação do casal, porque ainda achavam que ela tinha muita sorte em ter um companheiro assim tão atencioso. Como é possível que a vítima não se culpabilize e não duvide dela própria e perder-se numa reflexão sem fim: “Porque é que eu não me sinto feliz com este parceiro?”

Que tipo de condicionamento se trata este que foi abordado anteriormente?

O manipulador condicionou a sua vítima de forma bem específica. Normalmente quando se aprende algo num contexto agradável ou neutro a pessoa permanece acessível e flexível perante todas as futuras circunstâncias da vida. Consegue adaptar e enfrentar os problemas da vida. Mas quando a aprendizagem se efetua num contexto emocional desagradável intenso a pessoa fica como que anestesiada quando volta para um ambiente de tranquilidade. Na acalmia o inconsciente da pessoa nem a deixa pensar no que viveu antes de tão desagradável, desliga. É por uma mera questão de sobrevivência. Como se tudo tivesse sido colocado numa gaveta emocional e fechada depois da tempestade. Porém basta que o manipulador desencadeie na pessoa novamente emoções desagradáveis intensas (intimidações, humilhações, culpabilizações, confusões, dúvidas e outras anteriormente descritas) para reabrir esta gaveta emocional para que tudo regresse. Fica mais uma vez como que paralisada, sem conseguir refletir e constrangida a viver os tormentos infligidos por ele. Por esta razão, uma pessoa que vive debaixo duma manipulação mental perversa pode parecer que está tudo bem com ela quando se encontra em público ou no lugar de trabalho, quando na verdade vive um calvário em casa. Isto também explica em parte o porquê desta violência psicológica manter-se tanto tempo e ser ignorada pela própria pessoa e pelos outros.

Perante este cenário desumano é compreensível que a vítima não reaja nem atue adequadamente. A pessoa sente-se como que paralisada e obrigada a aceitar esta situação desumana. Presa nesta relação e por medo de ainda sofrer mais, a perspetiva de mudança imobiliza-a porque se sente insegura, enfraquecida, incompreendida. É demasiado complicado para uma pessoa debilitada encontrar as forças necessárias para mudar de vida sozinha sem apoio (de familiares, de amigos e de profissionais), quando se sente sem energia, insegura, desvalorizada, confusa e às vezes despersonalizada.

E há ainda mais, os fatores culturais que levam à incompreensão, à confusão mental e, forçosamente, à aceitação da situação. Todas as histórias de amor, sejam elas, escritas, filmadas, cantadas estão repletas de situações de sofrimento, de tormento. Na nossa cultura somos condicionados a pensar que há no sofrimento um indicador de amor, como se fosse uma autenticação, e que quem se recusar a aceitar o sofrimento, o sacrifício, demonstra egoísmo. Como então não acreditar que o amor é mesmo assim? Mas estas histórias criadas pelos escritores e pelos poetas são feitas para serem vendidas. Porque é que elas se vendem? Porque ajuda cada um, que as vive ou que as viveu, a se reconhecer nelas. É uma forma de alívio sabendo que os outros também passam pelo mesmo.

No entanto para se identificar com histórias de amor harmoniosas é preciso primeiro vivê-las, senão dificilmente a pessoa se reconhece em algo que ainda não viveu mantendo-se apenas na ilusão, nas falsas esperanças, propícias às manipulações. Quanto mais se viverem histórias de amor onde cada um evolui na relação mais as vendas irão aumentar. Porquê esta afirmação? Porque haverá menos vontade de perder tempo com histórias desagradáveis, a não ser que este tempo investido seja para ajudar quem estiver a sofrer.

Em suma, retomando o título deste artigo, coloca-se aqui uma reflexão final: como é que uma pessoa pode esperar sentir-se amada por alguém que não desenvolveu as mesmas conexões neuronais sobre o amor, sobre o respeito mútuo, sobre a reciprocidade, sobre a interajuda e sobre o sentido de responsabilidade? Envolver-se sentimentalmente numa relação com um indivíduo que não desenvolveu estas características essenciais, que não as estruturou, é colocar-se de certeza numa relação de sofrimento onde vai enfrentar sacrifícios, amarguras, desilusões, desamparo, incompreensão, tensões acumuladas, dedicação cega pelo outro com poucas contrapartidas até não suportar mais, sem nunca encontrar a tão necessária tranquilidade mental.

O que será também relevante destacar?

Os relacionamentos com os outros refletem muito a relação que a pessoa mantém com ela própria. Quem não se sentir digno de ser amado atraí quase sempre indivíduos que não sabem amar. Quem acha que não vale nada, que merece ser castigado, vai aumentar a probabilidade de se envolver com um parceiro que o vai destruir. Os amores escolhidos são o espelho daquilo que a pessoa sente no seu íntimo. Procurar o parceiro adequado é ilusório. Ninguém lhe convém, salvo a própria pessoa em si-mesma. Todo o segredo para encontrar alguém onde haja uma reciprocidade requer primeiro ser compatível consigo próprio. Então sim, os parceiros aceitáveis surgirão.

Na época atual, já existem muitas ferramentas para cada um se poder melhorar como pessoa distinta e única. Aproveita-se também esta oportunidade para relembrar a importância de se ter mais cuidado na forma como se lida com as crianças e com os jovens.

Enfim, numa relação para quem no futuro quiser sofrer menos terá que pôr fim à esperança de encontrar o seu semelhante, acabar com os contos infantis, e terminar com a procura do parceiro que lhe vai colmatar as suas carências, as suas falhas. Foque-se naquilo que está disponível a fazer para si mesmo e sobre aquilo que poderá melhorar em si, só em si. Num casal, desde que não haja manipulações e que haja espaço para cada um evoluir ao seu ritmo, aquele que souber cuidar de si próprio transparece como um benefício enorme para o equilíbrio do casal. Aquele que sabe estar bem com ele próprio torna-se um modelo, uma desmedida fonte de motivação para o outro querer também evoluir e até mudar em muitos aspetos. Os relacionamentos mais harmoniosos são os que sabem desprender-se um do outro e que permitem ao conjugue de evoluir para que, nos momentos em que estão juntos, estejam mais autenticamente disponíveis. Tanto o casal como cada um por si enriquecem em aprender, em descobrir coisas novas para poderem realizar-se como pessoa diferenciada e para se “alimentar” psicológica e espiritualmente (sem ser de cariz religioso). Não é nenhum luxo! Não perca tempo com aqueles que vos atormentam, que não gostam de si. A diversidade humana é demasiada vasta para se focalizar apenas naqueles que lhe prejudicam. Se mesmo assim tiver dificuldade em encontrar a pessoa que realmente a ame, então, primeiro, merece que se ame seriamente mais a si mesmo.

Tudo e todos evoluem constantemente. Nada, nem ninguém escapa a este processo. Quem se recusa a evoluir sofre desnecessariamente. Depois para atenuar momentaneamente este sofrimento destabiliza, magoa, os outros. Todavia, ninguém muda o outro porque simplesmente “eu quero”, quanto muito poderá entrar em conflito ou destrui-lo psicologicamente. O outro apenas muda se assim o decidir. Nem os melhores profissionais conseguem mudar quem quer que seja se este não aderir ou se recusar à mudança.

Quando não se consegue alcançar uma relação sã há que ponderar esta hipótese de estar a ser alvo de manipulação, mesmo se um dos parceiros não a praticar de forma consciente. Há que refletir sobre o porquê deste mal-estar! Terá que aprender a se prevenir das manipulações e pôr em prática as defesas de contra manipulação. E não hesitar em pedir ajuda se for necessário! Nunca se esqueça de que pedir ajuda não deve ser encarado, de forma alguma, como uma fraqueza, como geralmente se pensa, mas sim como uma força que demonstra uma vontade extraordinária para continuar a evoluir no rumo da vida.

As pessoas que são manipuladas são honestas, francas, escrupulosas e conscienciosas. Por isto é que os manipuladores também as escolhem e recuperam estas qualidades humanas em benefício deles. É uma honra manter estas qualidades, mas as únicas ferramentas que precisam de desenvolver ou de reforçar, são: como detetar um manipulador, como se defender, ultrapassar e sair das garras de um manipulador.

Perante a quantidade de correio eletrónico que tenho recebido de inúmeras vítimas tenciono publicar mais artigos sobre este tema da manipulação mental, quer ao nível das astúcias perversas quer ao nível das consequências desastrosas nas vítimas. A manipulação no quadro afetivo existe igualmente em diferentes categorias, entre pais e filhos, entre sogros/as e as noras/genros, entre outros familiares, entre um superior/chefe e o seu subordinado nas organizações, entre amigos e não apenas nas relações amorosas.

Convido cada um que tenha acabado de ler este artigo para deixar um comentário dizendo o que é que este artigo lhe inspirou, que dúvidas suscitou, que informação útil retirou e que reflexão lhe mereceu.

Aconselha-se a ler também, no mesmo site, os artigos intitulados:

– O respeito por si próprio e o amar-se a si mesmo

– Não seja vítima duma relação perversa narcísica!

– O que esconde a vontade de querer convencer?

– Numa nova era com escassos recursos financeiros não se terá que repensar a forma de como cada um deverá estar na vida?

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Comments

Meu nome é Marina, e me indentifiquei com o texto, sou uma vítima de manipulador perverso, meu marido foi diagnosticado com transtorno borderline a 1 ano está em tratamento, estamos casados a 30 anos , recentemente descobri várias traições , e tudo o que foi dito no texto é exatamente como me sinto, perdi 10 kilos e muita energia.

Olá António, o teu artigo é muito especial e será muito precioso a todas as pessoas/vitimas que se encontrem sob violência, pressão psicológica, desgaste físico e psíquico causado por manipulação doentia.
Penso que é um muito bom artigo e que irá permitir alargar vários horizontes intelectuais e especialmente sentimentais. Alertando e ajudando vitimas de relacionamentos penosos que já nem direito têm a decidir! Até que um dia chega a hora que se apercebem que até sentem medo de respirar! Obrigada! Bj.
Marisa.

By Olga Marques on January 19th, 2016 at 9:50 am

É impossível uma pessoa que tenha sido vítima de manipulação não se identificar com este artigo do nosso amigo António Valentim. Eu que também sou vítima de um manipulador aqui venho confirmá-lo. É muito duro tomar consciência de que na verdade nunca fomos amados, de que os nossos filhos também não o são e de que fomos usados a belo prazer do manipulador. Para mim isto foi e ainda é o que mais me magoa embora cada vez mais essa mágoa vá sendo substituída pela conscencialização de mim própria e do meu valor intrínseco, cada vez gosto mais de mim em detrimento dele. Sei agora que sou infinitamente melhor do que ele! Isto só para dizer que há esperança para as vítimas da manipulação e que não devemos desistir nunca. Temos de dar tempo a nós próprias para nos restabelecermos e aprender a não dar importância ao manipulador, ouvir sem ouvir e falar pouco, só o estritamente necessário. Obrigada Dr. António Valentim por este artigo tão esclarecedor e que tenho a certeza irá ajudar muitas outras vítimas de manipulação. Já partilhei o artigo no meu Face. Um abraço. Olga

Caro amigo Antonio,
Mais um artigo que adorei!
Muito interessante entender, de uma forma muito simples e pratica que este artigo apresenta, as caracteristicas de uma vitima e de um manipulador bem como de solucoes praticas que as vitimas podem usar para ultrapassarem esta realidade.
Revivi muitos dos comportamentos referidos em algumas relacoes passadas e vejo alguns dos mesmos em relacoes nao amorosas. Um artigo para mim de grande ajuda para uma tomada de conciencia sobre esta realidade que encontramos no dia a dia.
Obrigado pela partilha e pelos conhecimentos bastantes uteis!
Continuacao de um excelente 2016!

Olá gostei muito do seu artigo. Fui casada 14 anos e passei por tudo o que descreveu, parecia que você estava a escrever a minha história. Divorciei-me há 3 anos e segui a minha vida.

Obrigada pelo seu artigo

As relações humanas são naturalmente complexas. O mundo precisa muito de facilitadores como o António para apoiar e ajudar as pessoas envolvidas (e perdidas) em relações especialmente complexas como as citadas neste artigo.

By Anabela Borges on February 29th, 2016 at 6:27 pm

Como sempre, o António é muito perspicaz e vai ao âmago das questões. Mais um excelente artigo que vai tocar e ajudar muita gente.

Boa noite
Meu nome é Tania e descobri hoje lendo seu artigo que sou vitima do meu marido,estou totalmente abalada.

Uma excelente descrição do abuso perverso narcísico e rica em detalhes. Sem dúvidas um material precioso não só para quem é/foi vítima deste pesadelo, mas também para os profissionais que almejam aperfeiçoar sua prática.

Gratidão pelo seu tão importante trabalho!

By Paulo Hegeto on October 9th, 2016 at 11:48 pm

Eu gostei muito do artigo, por conseguir ver aplicado às múltiplas relações que temos. Só que, em reflexão, gostaria de dizer que há um diferencial neste texto, em seu benefício, de que leva em consideração A VÍTIMA! O que eu percebo em vários artigos que leio, em relação a bullying também, que traça o perfil e as características do buller e dá conselhos de “como fugir” APENAS, não deixando alternativas para aquelas pessoas que simplesmente não podem fugir. MAS, ainda, quero dizer que, acredito por mim, que TODOS NÓS temos quase todas as características, tanto do manipulador como de vítima. Todos nós passamos por traumas infantis que podem deixar, não apenas marcas, mas prejuízos funcionais (seja mental, seja da alma) que poderiam determinar, eu por exemplo, ser um manipulador perverso, não fossem outras características, educação, etc., que impedem agir assim quando calmo. Acredito que não sou, mas, dependendo da circunstância, do stress, pode haver uma afloramento de alguma dessas qualidades, em especial, como em um dos parágrafos do fim, foi abordado que outras relações familiares, podem se apresentar manipuladores disputando o mesmo espaço. Por exemplo: um marido pode ser um manipulador porque detectou que sua então namorada era frágil. Só que que a fragilizava, poderia ser seu irmão. Aí o marido “toma” o objeto da manipulação (esposa) do outro que não quer perdê-lo. E, enfim, tudo isso pode ir desvendando relacionamentos tóxicos e doentios dos ancestrais (de ambos os lados) com o marido e a esposa. Parabéns pelo texto. Fez muito bem para mim. Abraço.

By Elisângela on May 28th, 2017 at 12:18 am

António Valentin, vim lhe parabenizar pelos seus artigos. Que construção textual clara e objetiva.
Muito conteúdo claro e instigante de ler.
Parabéns pelo seu trabalho, é muito bom ler conteúdos que realmente trazem crescimento pra nossas vidas.
Um abraço.

 

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